terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Pequenas cervejarias se profissionalizam

O ESTADO DE SÃO PAULO - 19/01/2010

Com 1% do mercado, produtores artesanais fazem alianças para enfrentar os líderes


Débora Thomé, de O Estado de S. Paulo

RIO - Se em uma situação normal já é difícil para uma pequena empresa sobreviver, o que dizer quando essa empresa está em um setor em que quatro concorrentes detêm 99% do mercado? Esse é o cenário em que atuam as pequenas produtoras de cerveja. No Brasil, a AmBev, segundo a Nielsen, tem 70% do mercado; Schincariol, 11,6%; Petrópolis, 9,6%; e a Femsa - recentemente comprada pela Heineken -, 7,2%. A estimativa é de que, agora, a Heineken passe a ocupar 8% do mercado.

Contudo, mesmo diante desse quadro, as microcervejarias não desistem - e vêm se profissionalizando. Hoje a estimativa é de que existam cerca de 100 pequenos produtores da bebida, a maioria deles no Sul; mas também em São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro.

Uma das fábricas a integrar este 1% do mercado de cervejas "artesanais" é a Colorado, de Ribeirão Preto (SP). Funcionando há 15 anos, fabrica, por mês, em torno de 50 mil litros, e é vendida nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste. A produção é irrisória perto dos 583 litros milhões mensais da AmBev, mas tem seu público fiel.

"Meus concorrentes não são as grandes companhias. Competimos com a ignorância de muitas pessoas sobre a cerveja. De um modo geral, bebem de uma maneira automática. Não sou contra esse tipo de consumo, mas nem sempre a melhor cerveja é a mais gelada do bar", diz Marcelo Carneiro da Rocha, dono da Colorado.

O faturamento da cervejaria chega a pouco mais de R$ 2 milhões por ano; em 2009, cresceu 25%. Assim como as marcas de outras pequenas produtoras, o preço de uma garrafa começa em R$ 10 e pode chegar a R$ 80, como é o caso da Monasterium, produzida pela mineira Falke Bier. O número de empregados, em geral, é inferior a 40.

Marco Falcone, um dos donos da Falke Bier, conta que o movimento das pequenas produtoras é recente também na Alemanha, onde ressurgiu no fim da década de 70. Segundo ele, nos Estados Unidos, elas já têm hoje 5% do mercado. No Brasil, ganharam força a partir de 2000. Falcone saiu do trabalho e, junto com dois irmãos, passou a se dedicar à fabricação artesanal de cerveja, no sítio da família.

"Nosso segmento é diferente do das grandes marcas, que fazem cervejas padronizadas. Algumas dessas empresas usam itens como arroz ou milho, produtos que vão além do malte, lúpulo, água e fermento, na hora de fabricar a bebida", diz.

Falcone reconhece que o alcance do seu produto é limitado pelo próprio modelo de fabricação, que exige mais trabalhadores por litro e maior tempo de fermentação. Atualmente, ele vende 20 mil litros por mês.

A "reação desproporcional" da concorrência e o excesso de burocracia são apontados como as principais dificuldades. "Quando nossas vendas começam a crescer, as grandes cervejarias logo agem para tentar tirar a marca do bar", reclama Falcone. Marcelo também diz que não consegue vender seu produto em bares que tenham uma grande marca nacional.

Como esse mercado é feroz, aos pequenos concorrentes resta a ajuda mútua. As cervejas produzidas pela Falke Bier já estão em cidades como Porto Alegre, Curitiba, Rio e Brasília. Mas, no Estado de São Paulo, quem faz a distribuição é a Colorado. "Diferente das grandes marcas, nós, os pequenos, nos entendemos muito bem", brinca Marcelo Carneiro da Rocha.

A Bamberg, de Votorantim (SP), é outra microcervejaria que cresce no interior do Estado. Ela produz entre 20 mil e 50 mil litros por mês de 11 tipos de cerveja, seguindo o estilo alemão. Para crescer, tem contado com o boca a boca: "Nunca imaginei que isso pudesse acontecer em uma cidade como São Paulo, mas vem funcionando muito bem", conta o dono da cervejaria, Alexandre Bamberg.

Por ora, nenhum desses três empresários diz que pretende se desfazer do negócio. Mas é um caminho seguido por muitos. Há dois anos, a Schincariol, comprou a Nobel, de Pernambuco, a Baden Baden, de Campos do Jordão (SP), e a Devassa, do Rio de Janeiro.

Um comentário:

AAugustoJr disse...

acredito que resistir às grandes aquisições tem em futuro próximo retorno garantido. a taxa de retorno interna procurada por grandes corporações como a Schin é da ordem de 12-17%, desejável maior que 21%, esta deve ser uma meta rodeada pelas cervevejarias artesanais para entrar de igual para igual na briga. os preços mais competitivos e a propaganda pela cerveja HONESTA são a chave para ganhar esta batalha. basta divulgar as análises sensoriais da baden, por exemplo, antes e depois da aquisição e tenho certeza de que a queda na qualidade será evidente para todos. em termos de mercado a coisa é literalmente uma guerra e os grandes querem esta fatia do mercado, QUE SÓ CRESCE. avaliando a expansão da classe média intelectualizada no Brasil (2001 3% para 2007 4,1%) a chance de atingir este público com uma cerveja honesta e de qualidade é bem grande. neste caso a máxima da oferta e procura é bastante aplicável "A PROPAGANDA É A ALMA DO NEGÓCIO", cheers my friends
antönio augusto

 
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